O grande desafio
Margarida era uma menina pequena e de cabelo curtinho. Vivia numa casa simples e confortável. Era muito divertida e tinha muitos amigos. Não era a melhor aluna da sua turma. Aliás, não tirava nada boas notas. Mas os pais desculpavam-na sempre, pois era muito trabalhadora e ajudava bastante em casa. Estes tinham uma padaria e ela, sempre que podia, ia para lá ajudá-los a vender o pão, ou seja, a empacotá-lo e a atender os clientes, pois não sabia fazer as contas do pagamento.
Certo dia, no caminho para a escola, encontrou uma senhora já idosa que a chamou. Margarida já estava atrasada para as aulas, mas, como queria faltar um pouco à aula da manhã, foi ver o que a senhora lhe queria. Chegou-se ao pé dela com cuidado, pois lembrara-se, de repente, que os pais lhe tinham dito para não falar com pessoas estranhas no caminho para a escola. A velha olhou para ela de soslaio, assustando a pequena. Esta, quando estava já pronta para fugir, viu-se agarrada pela velha que lhe disse:
- Margarida, sei que não és lá muito boa aluna, mas, mesmo assim, penso que és a pessoa mais indicada para este trabalho.
- Olhe, desculpe lá, mas como é que sabe o meu nome? – perguntou ela intrigada.
- Não me faças perguntas e ouve-me com atenção. Vim de muito longe para te conhecer e para te pedir um favor: a nossa terra está a ser atacada por um terrível grupo de ladrões que pretende que nós sejamos seus servos. Por isso, vim pedir-te que construas uma casa tão grande, mas tão grande, que caibam lá todos os alimentos, água e roupa que nós te iremos mandar. Por fim, quando eu vir que já temos mantimentos suficientes, viremos todos para cá viver enquanto a guerra não acabar. Não podes contar nada a ninguém. Entendeste?
- Espere lá. Eu só tenho 10 anos. Como é que quer que eu construa uma casa e que guarde comida sozinha? E muito menos sem que ninguém veja?
Mas a senhora já tinha desaparecido por entre as espessas árvores que rodeavam aquele caminho de terra. Margarida ficou pálida com o que tinha acontecido e, sem perder mais tempo, correu para a escola, onde todos já estavam aflitos à sua espera. Deu a desculpa de que tinha encontrado uma cobra no caminho e que tentara fugir dela durante aquele tempo todo. Toda a gente acreditou.
Quando chegou ao fim mais um dia cansativo de aulas, Margarida foi-se embora a correr. Tinha que encontrar o melhor sítio para construir a casa. Percorreu todas as florestas que por ali havia, todos os terrenos, até que encontrou um espaço que lhe agradava num terreno abandonado perto de uma floresta.
Não sabia como iria ela sozinha construir uma casa tão grande, mas decidiu não desistir. Lembrou-se de quando era pequenina e de como costumava construir casinhas com pecinhas. Então pensou: “Se eu conseguisse construir a casa com peças muito maiores, iria ficar segura e grande”. Mas onde iria ela arranjar peças tão grandes? Por fim, lembrou-se dos garrafões de água que as pessoas lá da aldeia costumavam deitar para o lixo. Eram perfeitos para a construção! Eram leves e, com um bocado de resina dos pinheiros que tinha ao pé de sua casa, haveriam de ficar bem presos. Faltava agora a porta. Com madeira não poderia ser: era quase impossível parti-la e não teria tempo para o fazer. A sua mãe, quando ia entregar alguma encomenda, costumava colocar o pão dentro de uma caixa de papelão forte. E se ela a utilizasse para a porta? Poderia pôr várias camadas e ficava uma porta como outra qualquer. Só faltavam as janelas. Os garrafões podiam ser transparentes, mas para ninguém ver a comida que lá estava dentro nem as pessoas que lá estavam, teria que se pintar os garrafões de verde e castanho para a camuflagem. Teria que usar um material transparente que desse para abrir e para fechar. Os garrafões não davam: eram muito grossos para se abrirem e tinham que ser todos pintados. As janelas das casas normais costumam ter vidro. Porque é que aquela não poderia ter?
Correu para a sua aldeia para fazer grandes caixotes. Dentro destes, cada aldeão depositaria os garrafões que ia pôr para o lixo, tal como o vidro e o papelão. Mas, para distinguirem os caixotes, ela teria que inventar qualquer coisa para as pessoas não se enganarem a colocar lá o seu donativo. E se escrevesse em cada, respectivamente, “PAPELÃO”, “VIDRO” e “GARRAFÕES”? Não poderia ser: a maior parte das pessoas da aldeia, tirando as crianças e os jovens (que eram poucos), não sabiam ler. A única coisa que daria resultado era se pintasse cada um com uma cor própria. Assim foi. Para o caixote dos garrafões atribuiu a cor amarela, para o vidro a verde e para o papelão a azul.
Assim, as pessoas da aldeia começaram a encher os caixotes com os objectos que Margarida tinha pedido. E, a pouco e pouco, a casa começou a ser construída. Todos os dias, gastava três frascos de resina só para a grande casa. Os funcionários da empresa que recolhia o lixo daquela aldeia ficavam espantados ao encontrarem o caixote do lixo “normal” semi-vazio e os caixotes coloridos cheios até acima. Margarida tinha-lhes dito para não recolherem o lixo que estava nos caixotes coloridos, pois era para um trabalho da escola. Assim, os funcionários passaram a fazer a recolha só uma vez por semana.
Os aldeões andavam felicíssimos por poderem aproveitar até a coisa mais insignificante (para eles) do mundo. Era uma alegria quando tinham que deitar alguma coisa fora e eram obrigados a pensar antes de o fazer. Já sabiam as cores que trás para a frente e, quando viam alguém a enganar-se a depositar o seu lixo nos caixotes, explicavam-lhe logo onde era e como fazer para o depositar correctamente.
Com o passar do tempo, a casa ficou pronta. Margarida esperou que a velha senhora lhe enviasse os tais mantimentos de que lhe tinha falado, mas nada. Nunca mais via chegar o carteiro para lhe entregar alguma encomenda. Começou a estranhar e, com alguma preocupação, foi ver se a senhora andava pelo caminho onde a tinha visto pela primeira vez. E lá estava ela com o seu vestido comprido preto à espera da pequena.
- Houve um problema: a aldeia está sem água, por isso não posso enviá-la para tu a guardares na casa grande. Vais ter que ser tu a poupá-la e a guardá-la na casa que construíste. – explicou-lhe ela - Bom trabalho!
E foi-se embora. Margarida ficou desiludida, pois tivera muito trabalho ao construir a casa e não queria ter mais um: recolher a água. Mas, disposta a ajudar a pobre aldeia da senhora, animou-se e começou a pensar na melhor maneira de poupar água. Era óbvio que ela sozinha não iria conseguir poupar água suficiente para todo o povo da velha senhora. Pensou, pensou… E, de repente, chegou a uma conclusão: quando, depois de lavarmos os dentes, bochechamos com água, há uma percentagem de água que é “desperdiçada” durante os segundos em que não estamos a colocar água na mão para bochecharmos. Talvez, durante esse tempo, ela pudesse instalar um sistema que levasse essa água para um depósito na casa grande. Mas ela não sabia fazer isso. Chegou à conclusão de que teria que pedir ajuda ao seu amigo canalizador Roberto para vir instalar o tal sistema.
Este aceitou com alguma estranheza. Mas lá acabou por instalar o tal sistema nas casas das pessoas que concordaram, ou seja, toda a gente.
Neste caso, as pessoas pagavam o mesmo que costumavam pagar antes de instalarem o sistema de poupança de água, mas sabiam que aquela água que não tinham utilizado iria servir para alguma coisa, mal eles sabiam qual…
Assim, o depósito de água da grande casa começou a encher cada vez mais.
Margarida foi mais uma vez passear para o tal caminho para ver se encontrava a pobre senhora e, claro, lá estava ela, mesmo à sua espera, como sempre.
- Já conseguiste guardar muita água? – perguntou ela.
- Sim – respondeu Margarida – Quando é que envia os alimentos?
- Calma… Tudo a seu tempo. Por enquanto queríamos pedir-te outro favor: na nossa terra o ar e o chão são “limpinhos”, sem poluição alguma. Por isso, queríamos que fizesses com que estes estivessem também sem poluição para quando nós chegássemos não sentíssemos tanto a diferença.
- Mas o que é que a senhora pensa que eu sou? Alguma fada? – protestou a pequena.
Mas a senhora, como sempre, já se tinha ido embora.
Margarida ficou pensativa: “Mas por que raio é que a mulher lhe vinha pedir os favores a ela?”. Acabou por voltar para casa.
Não sabia como haveria de tornar o ar e o chão da sua terra menos poluídos, mas, passado algum tempo, lembrou-se de uma coisa: tudo o que ela tinha feito até agora, principalmente a separação do lixo, tinha contribuído para que os aldeões parassem de deitar o lixo para o chão, pois já o deitavam nos caixotes coloridos a que achavam uma certa piada. Agora só faltava a diminuir a poluição do ar…
Naquela altura, os automóveis ainda não eram um grande problema para o ambiente, pois quase ninguém os usava, era muito caros. Assim, Margarida pensou na única fábrica existente naquela aldeia: a “Papelex”. Era uma fábrica de papel que, para além de matar árvores, causava imensa poluição no ar. Pensou na maneira de fazer com que a fábrica parasse de contaminar tanto o ar e, de repente, chegou a uma conclusão: as árvores não são a única maneira de fazer papel. Claro que o papel é melhor, mas, tal como com a plasticina, podemos destruir as “esculturas” que já tínhamos construído e moldar uma nova, podemos aproveitar o papel já gasto e fabricar um novo. E, assim, foi falar com o presidente da fábrica, que, com algumas desconfianças, aceitou a proposta, pois era uma ideia inovadora que iria dar mais prestígio à fábrica.
Com o passar do tempo, a aldeia começou a ficar menos poluída e Margarida foi para o caminho de terra. Mas a velha senhora não apareceu. Não apareceu nunca mais durante anos.
Assim, quando Margarida já tinha 14 anos, a velha senhora voltou a aparecer e explicou tudo à menina que estava pasmada com o facto de a senhora, depois de tantos anos, ter aparecido finalmente.
- Na realidade, eu não pertenço a nenhum povo que anda em guerra…
- Não? Sua mentirosa! – reclamou Margarida.
- Calma. Eu pertenço a uma família cujo objectivo de vida era conseguir com que a Terra ficasse limpinha para sempre. E tu conseguiste-o! Claro que não foi o mundo inteiro, mas a tua aldeia está agora mais limpa e calma.
- Não percebo…
- Na tua aldeia, há imensas florestas que estão a ser destruídas. Ao implementares a novidade dos caixotes coloridos, fizeste com que as pessoas passassem a achar divertido não colocar o lixo no chão e passar a colocá-lo em caixotes. Quando arranjaste o sistema de poupança de água, estiveste a contribuir para que as gerações futuras tenham água suficiente para sobreviverem. E, por fim, quando acabaste com a poluição do ar, as árvores ficaram mais saudáveis e a fábrica ficou mais rica com o seu inovador papel. Parabéns! Contribuíste para um mundo melhor! Obrigada!
- De nada… - agradeceu Margarida com grande alegria, mas, ao mesmo tempo, com uma grande confusão na cabeça.
- Agora, vais passar a ser a Protectora do Ambiente e a fantástica casa que construíste vai ser um museu, o “Museu do Ambiente”, onde todas as escolas vão ensinar os seus alunos a preservar o ambiente.
Assim, daí em diante, passou a separar-se o lixo com os caixotes coloridos e todas as pessoas passaram a achar divertido não poluir o ambiente. Estava à vista o nascimento dos caixotes do lixo mais famosos, os ecopontos. Claro que, na actualidade, não são só para garrafões nem para papelão, mas foi daí que começaram.
Por isso, lembrem-se: separar o lixo, poupar água e não poluir o ar ajudam a construir um planeta melhor, o planeta da Margarida.
Patrícia Sofia Sousa Florindo